Licenciamento ambiental federal no Ibama: o que 13.914 atos de licença mostram sobre prazo, retrabalho e risco

Por João Vagner Brito de Medeiros, Engenheiro de Software
25 de junho de 2026 · 10 min de leitura
O licenciamento ambiental federal costuma ser explicado como uma escada de três degraus — licença prévia, de instalação, de operação. É uma descrição correta do rito e uma péssima descrição do processo. Quem opera sabe: entre um degrau e outro há complementação, retificação, condicionante, manifestação de ente interveniente e, com frequência, anos.
Em vez de repetir o rito, fomos aos dados que o próprio Ibama publica.
O que analisamos
| Base | Volume | Recorte |
|---|---|---|
| Relatório de licenças do Ibama (dados abertos) | 13.914 atos em 2.495 processos | extração de 13/07/2026 |
| Autos de infração — SIFISC | 118.847 autos, R$ 41,96 bi | 02/01/2018 a 12/07/2026 |
Os números abaixo saem dessas duas bases. Onde há limitação metodológica, ela está dita no próprio parágrafo — não em nota de rodapé.
Achado 1 — a escada LP→LI→LO leva 25 meses na mediana, e a cauda é longa
Medimos, dentro de cada processo, a distância entre a primeira licença de cada etapa. Dos 2.495 processos, 316 têm a trilha completa LP + LI + LO no relatório:
| Trecho | Mediana | Média | Percentil 90 |
|---|---|---|---|
| LP → LI | 7 meses | 14 meses | 37 meses |
| LI → LO | 19 meses | 27 meses | 58 meses |
| LP → LO | 25 meses | 35 meses | 76 meses |
Dois pontos importam mais que a mediana.
O primeiro: a distância entre mediana e média é o próprio risco. Em LP→LI, a mediana é 7 meses e a média é 14 — significa que metade dos casos anda rápido e uma minoria pesada arrasta o conjunto. Cronograma feito com a média superestima o caso típico; cronograma feito com a mediana ignora que 10% dos projetos levam mais de 6 anos de LP a LO.
O segundo: o gargalo é LI→LO, não LP→LI. É a fase em que a obra já foi feita, o capital já foi gasto e o empreendimento ainda não pode operar. Nessa faixa a mediana já é de 19 meses.
Contraste isso com a Lei 15.190/2025, que fixa prazos máximos de análise por modalidade — da ordem de 6 meses no rito simplificado e até 24 meses quando há EIA/RIMA. Os prazos legais contam o tempo do ente; a série acima mede o tempo do processo, que inclui o tempo do empreendedor respondendo complementação. É exatamente por isso que o relógio legal não substitui o acompanhamento: um processo pode estar dentro do prazo da autoridade e fora do cronograma do projeto ao mesmo tempo.
Achado 2 — um terço do que o Ibama emite é retrabalho sobre o que já emitiu
Classificamos os 13.914 atos pelo tipo declarado:
| Natureza do ato | Quantidade | % do total |
|---|---|---|
| Retificação (de licença ou autorização) | 2.642 | 19,0% |
| Renovação | 2.371 | 17,0% |
| Prorrogação | 415 | 3,0% |
| Total de atos derivados | 4.845 | 34,8% |
Ou seja: a cada três atos publicados, mais de um não cria licença nova — ajusta, renova ou estende uma existente.
Isso tem consequência direta na forma de acompanhar. Um controle que registra "licença emitida" e fecha a pasta perde, estatisticamente, um terço dos eventos do próprio processo — e justamente os que mudam condicionante, prazo e escopo.
A distribuição por processo reforça: a mediana é de 2 atos por processo, mas a média é 5,58 e 359 processos acumulam 10 atos ou mais. O processo mais movimentado da base (02001.001848/2006-75) tem 177 atos. Não existe "processo típico" — existe uma cauda de processos que viram trabalho permanente.
Achado 3 — 577 licenças federais vencem nos próximos 12 meses
A validade mediana de uma licença federal nessa base é de 730 dias. Contando a partir da data da extração (13/07/2026):
- 158 licenças vencem em até 90 dias;
- 577 licenças vencem em até 12 meses.
As tipologias mais expostas na janela de 12 meses: petróleo e gás – produção (107), estruturas rodoviárias (101), sistemas de transmissão (75), usinas hidrelétricas (47), estruturas ferroviárias (36) e mineração (35).
Renovação não é evento surpresa — é data conhecida desde a emissão. O que a transforma em crise é ela morar numa planilha que ninguém abre, e não numa agenda que dispara sozinha.
Onde a atividade federal está concentrada
| Tipologia | Atos |
|---|---|
| Estruturas rodoviárias | 2.522 |
| Sistema de transmissão | 2.110 |
| Usina hidrelétrica | 1.773 |
| Petróleo e gás — produção | 1.204 |
| Mineração | 1.144 |
| Estruturas ferroviárias | 940 |
27% dos atos (3.787) estão marcados como PAC. E a emissão em 2025 foi de 866 atos — o maior volume anual desde 2013 (837), depois de um piso de 509 em 2023. O sistema federal está mais movimentado, não menos.
O elo que quase ninguém acompanha: licença e fiscalização são o mesmo risco
Aqui o cruzamento entre bases mostra o que uma base sozinha não mostra.
Nos autos de infração do SIFISC (2018–2026), a categoria "Licenciamento" responde por 3.458 autos e R$ 2,17 bilhões, com multa mediana de R$ 50.500. Além disso, 6.202 autos (R$ 1,57 bi) descrevem conduta em desacordo com licença ou descumprimento de condicionante.
E o cruzamento entre os dois universos: dos 896 empreendedores que aparecem no relatório de licenças, 257 também aparecem como autuados — 4.494 autos, R$ 2,63 bilhões.
Analisamos essa base de sanção em detalhe num post próprio — multa ambiental do Ibama: o que 118.847 autos revelam.
Mesmo com essa ressalva, a direção é inequívoca: estar licenciado e estar autuado não são estados opostos — são o mesmo empreendimento em dois sistemas diferentes. Quem acompanha só o processo de licença enxerga metade do próprio risco.
O que mudou no marco legal — e por que ainda não está estável
A Lei 15.190/2025 (Lei Geral do Licenciamento Ambiental) entrou em vigor em 4 de fevereiro de 2026, depois de o Congresso derrubar, em 27/11/2025, 52 dos 63 vetos presidenciais. A Lei 15.300/2025 complementa o quadro ao disciplinar a Licença Ambiental Especial (LAE).
Os pontos que mais mexem com o dia a dia:
- LAC (Licença por Adesão e Compromisso) — licença obtida por autodeclaração de conformidade, sem análise técnica prévia, para faixas de porte e potencial poluidor definidas;
- prazos máximos de análise por modalidade, com o rito simplificado num patamar bem mais curto que o rito com EIA/RIMA;
- repartição de competência entre federal, estadual e municipal por critério de impacto.
Nada disso é ponto pacífico: há ADIs em curso no STF questionando dispositivos das duas leis — a LAC para médio potencial poluidor está entre os alvos centrais. Enquanto o Supremo não decide, o desenho aplicável pode mudar no meio de processos já em andamento. Na prática: tese jurídica de licenciamento hoje tem prazo de validade, e a data de referência do seu parecer importa tanto quanto o conteúdo dele.
O que isso significa para quem opera
Como o ProcTracker entra nisso
O ProcTracker acompanha os processos administrativos do Ibama movimentação a movimentação: cada novo documento entra numa linha do tempo do processo, com alerta quando algo muda — inclusive os atos derivados que costumam passar batidos. Ao lado disso, o BigData Regulatório mantém as bases públicas que geraram esta análise (licenças, autos de infração, embargos, apreensões e suspensões do Ibama, entre ~27 fontes), permitindo perguntar por empresa, não só por número de processo.
É a diferença entre saber que a licença saiu e saber o que aconteceu com o processo depois disso.
Para o rito passo a passo — etapas, prazos do art. 47 da Lei 15.190/2025, validade e renovação —, veja o guia licenciamento ambiental federal: as etapas e onde o processo trava.
Metodologia: extração do relatório público de licenças do Ibama (atualização de 13/07/2026, 13.914 registros) e da base SIFISC de autos de infração (118.847 registros, 02/01/2018–12/07/2026). Intervalos entre etapas medidos pela primeira ocorrência de cada tipo de licença dentro do mesmo número de processo Ibama. Janela de vencimento contada a partir da data da extração (13/07/2026). Publicado originalmente em 25/06/2026; reescrito com base nas duas bases acima. Cruzamento entre licenciados e autuados feito por nome normalizado, sem documento — indicativo, não conclusivo.
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